Para colher dados do segmento, a CPFL desenvolveu projeto-piloto de mobilidade elétrica chamado Emotive

A questão ambiental, a possibilidade de abastecer o carro sem sair de casa e, agora, a iminência da concretização do programa Rota 2030 – que instituirá uma nova política para o setor automotivo – são fatores que contribuirão para que os veículos elétricos tornem-se uma realidade consolidada no Brasil. Projeções feitas pelo grupo CPFL apontam para esse cenário. Uma estimativa mais modesta indica uma frota de cerca de 5 milhões de automóveis elétricos no País até 2030, e outra mais ousada projeta esse número em 13,3 milhões. Na previsão mais otimista, o volume de carros elétricos corresponderia a uma participação de 12% da frota nacional e, na mais contida, 5,3%. O impacto no consumo de energia seria de 0,6% a 1,7% da carga do sistema elétrico interligado nacional, de 908 MW médios a 2.413 MW médios. Atualmente, de acordo com dados da Fundação Getulio Vargas (FGV), há apenas 2,5 mil veículos nesse modelo no Brasil, número muito baixo comparado ao total da frota nacional de 92 milhões, segundo o Departamento Nacional de Trânsito. O diretor de estratégia e inovação da CPFL Energia, Rafael Lazzaretti, considera que esse mercado vem engatinhando no Brasil até agora. Porém, o executivo comenta que alguns agentes, como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), anteciparam-se e já estão discutindo temas como a regulamentação das recargas dos carros elétricos. O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, por sua vez, desenvolvendo o Rota 2030, pretende inserir essa nova tecnologia na realidade brasileira. Lazzaretti ressalta que o assunto está sendo amplamente discutido no mundo, especialmente nos países comprometidos com a redução dos seus índices de poluição. Conforme dados da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o país com maior número de automóveis elétricos em relação ao total de veículos é a Noruega. Lá, um em cada quatro carros circulando nas ruas é elétrico. Na Holanda, segunda nação da lista, 10% da frota já é elétrica. Outros quatro europeus (Suécia, Dinamarca, França e Reino Unido), mais a China, têm 1% dos veículos movidos a eletricidade. “Carro elétrico (no Brasil) não é uma questão se vai vingar, mas de quando e de quantos”, diz Lazzaretti. O diretor da CPFL afirma que a rede de energia nacional está preparada para absorver o aumento da carga com o abastecimento da frota de veículos elétricos. “Do ponto de vista de garantia que vai ter energia para os carros elétricos, a resposta é muito confortável: sim, porque o modelo de expansão do setor de energia é muito robusto”, frisa. Entretanto, Lazzaretti recorda que há um outro desafio a ser superado, que é a infraestrutura que envolve linhas de transmissão, postes, transformadores e a necessidade de difundir eletropostos. Sobre os eletropostos, a CPFL defende que o mercado deve ser aberto para os empreendedores interessados, não ficando a função de instalar essas unidades exclusivas para as distribuidoras de energia. Contudo, enquanto o mercado for incipiente, Lazzaretti diz que pode ser necessário algum incentivo legal para o desenvolvimento de uma infraestrutura mínima. O diretor recorda que é possível carregar os veículos nas casas dos usuários. Lazzaretti comenta que cerca de 80% dos veículos elétricos, normalmente, são recarregados na residência ou no local de trabalho dos proprietários. Para colher dados sobre o setor, a CPFL desenvolveu um projeto-piloto de mobilidade elétrica chamado Emotive. A ideia consiste em utilizar o município de Campinas, em São Paulo, como um grande laboratório instalando eletropostos em vários pontos, estimulando o uso dos veículos elétricos para realizar a coleta de informações. Hoje, na região da cidade, existem 10 eletropostos, localizados em espaços públicos, em operação. Organizações defendem pressa na confirmação do Rota 2030 A ansiedade devido à espera pela confirmação do governo federal quanto à implantação do novo regime automotivo Rota 2030 é grande entre os agentes que desejam ver o aceleramento do mercado de veículos elétricos no País. Um dos maiores benefícios previstos pelo programa para o setor é a redução da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos modelos elétricos de 25% para 7%. “Isso será fantástico, esse é um movimento que o governo está fazendo e que vai, realmente, impulsionar, de uma forma muito clara e consistente, o setor de elétricos e híbridos no Brasil”, aposta o presidente da ABDI, Guto Ferreira. O dirigente sustenta que os híbridos, que contam com um motor de combustão interna e outro elétrico, também precisam ser incentivados. O presidente da ABDI justifica sua opinião enfatizando que os elétricos são a ponta da inovação do que acontece no mundo, mas, no caso do Brasil, existe um fator importante, que é a cadeia produtiva do etanol. “O híbrido é a possibilidade de se trabalhar com o elétrico e manter um setor importante ligado ao álcool”, enfatiza. Ferreira comenta que, recentemente, durante a comemoração dos 60 anos da Toyota no Brasil, a montadora anunciou o seu primeiro motor híbrido-flex, que focará mais no etanol do que na gasolina. “É o motor menos poluente do mundo, que vai ser fabricado no Brasil”, comemora o presidente da ABDI. O dirigente considera plenamente possível a perspectiva de se ter mais de 10 milhões de automóveis elétricos no Brasil até 2030, desde que o cenário macroeconômico possa refletir em melhoras no microeconômico, com reduções de taxas de juros e políticas de incentivo. “O veículo elétrico é uma realidade que o País simplesmente não tem como fugir, a questão, agora, é saber como aumentamos a escala”, argumenta. O presidente da ABDI defende a adoção de incentivos para o setor automobilístico desde que comprovado que houve avanços quanto aos modelos nacionais. Ferreira destaca que há duas visões muito distintas em relação ao Rota 2030, uma do Ministério do Desenvolvimento e outra do Ministério da Fazenda. Segundo o dirigente, a Fazenda acredita que a indústria nacional pode ser substituída pelos importados, e o Desenvolvimento pensa que é possível construir uma cadeia de alta qualidade no setor automotivo no Brasil. O presidente executivo da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), Ricardo Guggisberg, enfatiza que é essencial que se baixe o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) cobrado sobre os veículos híbridos e elétricos. “O governo já falou isso várias vezes, mas cadê o imposto reduzido?”, indaga o dirigente. Na terça-feira passada, o ministro interino da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge de Lima, afirmou que o Rota 2030 iria ser anunciado nos próximos dias. Guggisberg defende que é necessário acompanhar a evolução mundial, e essa demora do governo está atrasando o mercado. O presidente da ABVE ressalta que é preciso criar um mercado nacional para adequar a indústria e fabricar esse tipo de veículo internamente. “O Brasil, há muitos anos, somente monta modelos inferiores aos europeus, e esse é um paradigma que precisa ser quebrado”, defende. O presidente da ABVE acredita que é possível que, em poucos anos, tenha-se uma montadora desenvolvendo carros elétricos em escala no Brasil, desde que o governo comprometa-se a aprovar o plano de desenvolvimento do setor. Além de apoiar a sustentabilidade, um modelo elétrico é também muito econômico. Na Europa, que é o lugar com a maior concentração de carros desse tipo, um veículo movido a gasolina gasta, de acordo com informações da ABDI, quase € 10 por cada 100 quilômetros; um movido a diesel fica em média de € 7; enquanto o automóvel movido a eletricidade percorre os mesmos 100 quilômetros por € 2 – convertendo para o real, seriam apenas R$ 7,90. Uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro – cerca de 450 quilômetros – sairia por R$ 35,50

Fonte: Jornal do Comércio